segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Saltinho com barulhinho III

Foi viajar, pra longe daquela roça desgracenta. Seu destino escolheria na estação de trem. Respiraria novos ares.
E Brasilina foi e voltou, inteira e com novidades. Em suas andanças encontrou um moço bonito, de porte atlético. Deliciosos seus papos...ahh!
Foi um espanto na roça inteira quando a viram chegar com essa figura um tanto moderna para a imagem fazendal.
"Essa dona não bate bem das ideias!"
Brasilina e o moço se casaram e sairam para a lua-de-mel, e nunca mais voltaram. Na verdade, os que ficaram nem se deram conta deste sumiço. Foi quando Brasilina voltou..." E cadê o moço bonito?!
"Tinha morrido, uai!".
Não. Brasilina escondeu que uma cigana, daquelas de circo, enfeitiçou seu homem. E então ele e a cigana foram pra outras bandas.
Brasilina estava envelhecendo, não tinha mais a formosura de antes. Seus olhos estavam caídos, suas mãos enrugadas e cheia de manchas da idade. Estava na madureza.
"Será que ela tomou juízo?"

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Saltinho com barulhinho II

Brasilina e o tal moço eram socialmente felizes. Tiveram sete filhos sendo o primigênito de nome Horácio. A caçula se chamava Mandinha, mirradinha e doentinha igual ao pai. A quarta era Maria, boa menina.
Brasilina amava a todos os seus filhos e servia seu marido fielmente. Trocara os pincéis da maquilagem por colheres de pau e renegara toda a sua vaidade esquisita . Tudo pela sua família.
Até que aos 15 anos de casados, seu marido veio a falecer de complicações pulmonares, coisa comum na época.
Os parentes mostravam-se com dó da mais nova viúva do vale. Brasilina ignorava esse cinismo besta e dava graças a Deus por se ter de novo. Se amava por demais.
Os filhos já estavam criados e as filhas tinham maridos bem arrumados. Tadinhas...
Seu ânimo era outro. Agora ela poderia ser Brasilina.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Saltinho com Barulhinho I

Brasilina era assim. Dispensava qualquer comentário maldoso dos parentes invejosos. Assumia todas as suas manias: tinha o rosto pintado, os cabelos escovados e amarrados com uma fita, andava toda dondoca pelo sítio com salto alto laranja. Laranja... Imagina! Que aberração essa menina! Perguntavam: a quem ela quer conquistar?
A ninguém!
Brasilina com seus lindos 15 anos, queria ser quem era...apenas Brasilina. Não pensava em ser igual às suas colegas. Elas já tinham um destino.
Ter um marido escolhido a dedo para mandar em seus perfumes, em seus desejos e em seus corpos.
"Eu, 'Madam Marido Escolhido'? Que horror!"
Mas era tempo dos casamentos arranjados. Brasilina, infelizmente, não escaparia. Teria um marido para respeitar e poria de lado a sua juventude. Passaria os dias na cozinha, teria um piano para dedilhar e iria à missa para se confessar.
Seu pai fora bondoso e acertou com um daqueles coronéis o noivado de sua filhinha com o filho mais velho do homem.
Era moço dos bons, tinha acabado seus estudos de direito no Rio de Janeiro e estava em tempo de se casar.
Tinha 25 anos.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Série Brasilina


Saudações leitores,
eu sei que vos abandonei por muito tempo, não vou me explicar nem colocar um 'mas'.
Então, espero me redimir postando uma divertida história de família. É a história de minha tataravó, vó do meu vô. Sim, distante.
Meu vô contou esta história...e sinceramente,adorei saber que em minha família existiu Brasilina. Que orgulho!
Alguém excêntrico... a patinho feio, aquela que causava vergonha alheia.
Quero lhes apresentar Brasilina... com um pouco mais de imaginação.
Aproveitem!

domingo, 19 de dezembro de 2010

Gosto muito desta minha inspiração pós leitura de 'Gabriela Cravo e Canela', por isso repito a dose neste blog, para aqueles que não acessam o Volta pro mar tartaruga



Cheira a cravo sua pele canela,
Elagabri, Gabriela,
Gaelabri, Elabriga, briga não
Ela é vontade por antecipação
Na praia ela corre
Na cama com seu árabe morre
E renasce todo dia
Como um sorriso de menina
Como um iniciar de ave-maria
Ela é anca, perdição
Bota casa pra ela, o capitão
Quero não, diz com meiguisse
Ai, se ela sumisse
Suspeitava o turco Nacib
Moço bom, moço bonito
Seu Nacib com desejo explícito
Tê-la para todo o sempre,
Num casamento de tempo permanente
Quero não, precisa não, gosta não.
E um riso fácil sorria
Dizia Nhô-Galo: "Certas flores, quando em vaso, sumia!"
E foi assim que o árabe sugou de sua pele canela
O que mais tarde a devolveu num gritado: " Sua cadela!"
Agora voltava a ser quem era, aquela a cantar na janela,
Sem sapatos apertados, nem vestidos em rodela
Sim, ela podia ser Gabriela
Sempre cravo e canela